Pular para o conteúdo principal

Pupunha e as danças festivas dos uainumás.

Você sabia que o consumo da pupunha entre os uainumás era tão importante que eles faziam danças festivas quando os frutos da palmeira amadureciam? Segundo os viajantes Spix e Martius: "Os uainumás moram em grandes cabanas cônicas, onde estão dispostas duas portas pequenas, fronteiras uma a outra. Eles cultivam mandioca, mas pouca farinha
fazem, quase exclusivamente só os beijus. Nas danças, enfeitam-se com profusão
de penas. Essas danças festivas realizam- se em determinadas ocasiões: duas, quando amadurecem os frutos da palmeira pupunha, e oito quando as garças reais acarás, nos seus voos migratórios entre o Solimões e o Orenoco, aparecem nas suas águas. Faz-se então caça dessas aves aos milhares, assam-se em moquém e guardam-se como
provisão".(1) Importante observar que ambas as festividades estavam associadas a natureza e ao alimento que dela podiam obter. A pupunheira, em especial, permitia uma "colheita" farta, já que uma palmeira dava:"(...) algumas centenas de frutos, que amadurecem pouco a pouco, ela lhes é fonte de alimento rico, natural(...) É esta a única espécie de palmeira, cujo cultivo pelos índios, eu pude por mim mesmo verificar".(2) Provavelmente, nestas festividades poderiam ser consumidas bebidas fermentadas, inclusive, da própria pupunha já que como nos esclarecem abgar Bastos: "(...) há as bebidas fermentadas dos indios que podem tanto ser de frutas como de milho, pupunha, mandioca e cará".(3)Nesse sentido, podemos observar que era comum em algumas populações indígenas a elaboração de bebidas fermentadas de pupunha.[No texto de ontem, falei um pouco mais sobre a importância da pupunha, inclusive, da domesticação da palmeira pelos povos originários]. A pupunha também é descrita no livro Alimentos Regionais Brasileiros, como fruto da região Norte do Brasil e que:"A pupunha é um fruto de uma palmeira que dá em forma de cachos e apresenta formato e coloração variados: redondas, ovoides ou cônicas e cores vermelha, amarela, alaranjada e até mesmo verde. Fruta de excelente valor energético e elevado teor de vitamina A, apresenta polpa carnuda, espessa e, às vezes, fibrosa. A pupunheira se dá melhor em ambiente quente e úmido e frutifica de janeiro a março".(4) Estamos na época da pupunha, se você andar pelo ver-o-peso e feiras da capital e dos interiores, você encontra colorindo as barracas: as pupunhas. [E se você quiser saber mais, rola o feed]  Também é possível encontrar em alguns pontos espalhados pela cidade as pupunhas cozidas cujo brilho são convidativos para levar para casa ou consumir ali mesmo.
.
.
.
📚✍️🏽Referências.
🛎O conteúdo deste blog está protegido pela lei n° 9.610 datada de 19-02-1998. Ao de utilizá-los, não se esqueça de dar os créditos.
📸 Acervo Pessoal da Autora.
(1)(2) Spix, F., Johann Baptist von, 1781-1826.Viagem pelo Brasil (1817-1820) / Spix e Martius. ; tradução de Lúcia
Furquim Lahmeyer -- Brasília : Senado Federal, Conselho Editorial, 2017.p, 303.
(3)Bastos, Abguar. A pantofagia ou as estranhas práticas alimentares na selva:
estudo na região amazônica I Abguar Bastos. - · São Paulo : Editora Nacional ; (Brasilia, DF) : INL, 1987. p, 129.
(4) Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Alimentos regionais brasileiros / Departamento de Atenção
Básica. – 2. ed. – Brasília : Ministério da Saúde, 2015. p, 66.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A bolacha preta.

Bom Dia! Em fins da década de 80, fazíamos as famosas viagens de carro, no meu caso era de caçamba mesmo,  meu pai que é do Rio Grande do Norte, levava toda a família pra visitar a família dele e íamos felizes daqui do extremo Norte para o Nordeste. Lembro que nas viagens, em especial, na volta mamãe trazia uma boa reserva de Bolacha Preta, que eu vinha degustando e que tanto adoçavam minha viagem e meu paladar. Eram dias muito felizes e saborosos! Na última viagem que minha mãe fez, eu pedi que me trouxesse a dita bolacha, queria matar a saudade gustativa. A sorda é um popular e tradicional biscoito originário do nordeste brasileiro. Feito de uma massa composta de trigo, mel de rapadura e especiarias, tais como cravo, canela e gengibre. É fabricado artesanalmente ou industrializado por fábricas panificadoras em quase todos os estados do nordeste brasileiro, sendo muito consumido na área do sertão. Conhecido também em algumas localidades por bolacha preta, vaca pr...

É CARNAVAL.

Na pintura de Debret temos uma imagem do Carnaval  ou como era chamado no século XIX, de Dia d'entrudo. O dia d'entrudo que começava no domingo e seguia-se nos três dias gordos, era dia de festa em que os brincantes se jogavam "limões "cheios de água perfumada. A cena se passava no Rio de Janeiro, no ano de 1823. Segundo Debret: " O carnaval no Rio e em todas as províncias do Brasil não lembra, em geral, nem os bailes nem os cordões barulhentos de mascarados que, na Europa, comparecem a pé ou de carro nas ruas mais frequentadas, nem as corridas de cavalos xucros, tão comuns na Itália. Os únicos preparativos do carnaval brasileiro consistem na fabricação dos limões-de-cheiro, atividade que ocupa toda a família do pequeno capitalista, da viúva pobre, da negra livre que se reúne a duas ou três amigas, e finalmente das negras das casas ricas, e todas, com dois meses de antecedência e à força de economias, procuram constituir sua provisão de cera. O limão-...

Filhós, filhoses ou beilhoses.

, Não era biscoito, pão, pudim nem mousse... A primeira receita que reproduzi do livro O Cozinheiro Imperial foi Verdadeira receita de beilhoses. Tenho certeza que muitos conhecem pelo nome de Filhós ou filhoses! Comecei por essa receita, porque ela tem uma memória gustativa tão boa pra mim. Enquanto eu fazia, lembrava dos filhoses que a minha tia Leila fazia e ainda faz .... ahhhh os delas são tão bons, não tem iguais. Foi tia Leila, irmã de minha mãe, que me "apresentou" os filhoses de abóbora e, naquela época eu não imaginava a origem dos beilhoses, mas, como criança gulosa que sempre fui, amava cada pedacinho daqueles filhoses crocantes por fora, macios por dentro e com aquele gosto inigualável de abóbora, canela e açúcar. Consigo até sentir o cheiro e sabor agorinha mesmo. Mas, você sabe que os beilhoses ou filhoses, fazem parte da doçaria portuguesa? O historiador portu...