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Sobre o peixe...

Olá, leitores!
No século XIX o peixe seco foi extremamente comum na dieta da população, diferenciando-se nas mesas apenas pela espécie e formas de preparo. Entre esses peixes estavam o pirarucu, a gurijuba, o tambaqui a tainha e outros. Além de serem constantes os peixes possuíam uma diversidade de preparo. Ele era saboreado com gosto e na falta de outros tipos de carnes não era nenhum sacrifício come-lo, apesar da carne verde ser um dos principais produtos requeridos na capital. A carne de peixe era uma das mais consumidas e diferentemente do que ocorria em outras regiões ou países, o caboclo e demais pessoas sempre recorriam ao peixe seco ou fresco para matar a fome, isto é, na falta da carne tinha o recurso dos peixes até porque a quantidade e variedade dos rios davam uma fartura e abundância.
 A população dos interiores do Pará recorriam aos rios tão abundantes na região, comendo ao lado da farinha pirarucu, o peixe-boi, as tainhas e afins. Em muitos documentos é possível identificar a pesca e o salgamento do peixe como atividade lucrativa e constante. Assim, durante o período da pesca as feitorias tornavam-se uma espécie de ‘casa’ dos pescadores que sozinhos ou na companhia da família formavam a habitação e armazém. José Veríssimo nos deixa em seu estudo sobre a pesca na Amazônia, descrição de tais feitorias revelando-nos toda uma forma de viver em torno da atividade pesqueira. Entre as pessoas que se destinavam aos trabalhos nas feitorias e pescarias estavam os sertanejos e ainda os índios Segundo o viajante Gaetano Osculati quando esteve em Tabatinga um dos grupos que saíam à caça do pirarucu eram: “os índios Ticunas vão à sua pesca com arpões, com os quais o atingem, mal se apresenta à flor da água”.[9] Agassiz quando de sua viagem nos conta a história de um desses índios pescadores José Antonio Maia vivia com em uma cabana numa barranca de um braço do Ramos um rio, que comunicava o Amazonas com o Madeira, Maia morava com sua mulher Maria Joana e seus filhos. 
No século XIX, este era o caso entre outros peixes do pirarucu[13] ou como dizia Avé-Lallemant o ‘peixe encarnado’, o qual era uma verdadeira benção ao povo já que “O consumo do peixe encarnado” é enorme (...). E esse consumo não é certamente menor do que a exportação”. Além do consumo ser grande, o viajante nos esclarece que apesar da produção para exportação, uma parte dos peixes ficava nos interiores em que eram pescados e serviam para o consumo. 
O peixe era objeto de um comércio que movimentava bastante os interiores, pois, além da venda do peixe fresco, podia-se salgá-lo o que dava-lhe uma durabilidade maior. Entre os peixes que mais entravam na capital da província estava o pirarucu que era produto constante nas tabernas, feiras, mercados e vendas. No armazém da Viúva Fernandes & filho encontramos para leilão no ano de 1858: “uma partida de pirarucu de superior qualidade, uma dita de cacau, e uma dita de couros salgados”. Em um anúncio de 1852 encontramos entre os produtos considerados tipicamente regionais: “Pirarucú, carne seca, mapará em porção (...) tudo de boa qualidade em porção, se vende por cômodos preços na taberna de Manoel da Cunha Muniz na travessa Pelourinho”. Em 1869 encontramos do dia 11 a 25 de janeiro chegaram a capital  3.320 arrobas de peixe, que não foram especificados o tipo, mas provavelmente vinham dos interiores, já que estavam locados ao lado de produtos tipicamente regionais como urucu, sebo, salsa, azeite de andiroba.
O pirarucu compunha a lista dos peixes que eram salgados para a venda. Avé-Lallemant resume bem a atividade de uma feitoria nas proximidades do Rio Iça, no Amazonas, os pescadores eram os próprios habitantes da região dos rios que na época da pesca deixavam suas casas e desciam para as praias onde construíam as feitorias para o beneficiamento dos peixes. Nas feitorias “deitam o peixe com o ventre para baixo, escamam-lhe as costas com uma machadinha ou um facão, de maneira a poderem enterrar uma afiada faca de cozinha entre o couro e a carne e esfolá-lo” E ainda “Cortam depois as duas metades do corpo, no que revelam uma habilidade peculiar, dos dois lados da carcaça, separando-a das grossas espinhas da cavidade abdominal, esfregam-lhe sal e suspendem-nas por cima de varas, onde secam rapidamente, dentro de um a três dias, sob o sol abrasador”. Assim, o peixe juntamente com a carne e a farinha compunham a base da alimentação na província do Pará.

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