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O pirarucu.

Você sabia que  entre os peixes que no século XIX mais "entravam" para consumo na capital da província, Belém, estava o pirarucu? E que o pirarucu era produto constante nas tabernas, feiras, mercados e vendas? Em um anúncio de 1852 encontramos entre os produtos considerados tipicamente regionais: “Pirarucú, carne seca, mapará em porção (...) tudo de boa qualidade em porção, se vende por cômodos preços na taberna de Manoel da Cunha Muniz na travessa Pelourinho”.(1)No armazém da Viúva Fernandes & filho encontramos para leilão no ano de 1858 havia para a venda: “uma partida de pirarucu de superior qualidade,”.(2)  [Já falei por aqui sobre o Pirarucu]. O abastecimento de peixe para consumo da capital fazia-se em larga escala contando com as mantas que  vinham dos interiores e dava-se de forma constante e cotidiana. O peixe diferentemente da carne que em alguns momentos era importada de outras províncias, o peixe salgado não tinha na importação de fora da província o seu forte, apesar de que era possível encontrar peixes vindo de Manaus, Serpa e Vila Bela. Por exemplo, em 1869, chegaram 2.945 arrobas de pirarucu vindo de Manaus, Serpa e Vila Bela no Vapor Nacional Arary.(3) Nos anos entre 1897-1898 vieram dos interiores 386.115 kilos de peixe seco e entre 1898-1899 foram quase o dobro com 661.451 kilos.(4) Logo, o provimento de peixe seco e/ou fresco na capital fazia-se pelos interiores que ao longo do século XIX com suas embarcações aportavam na capital com carregamentos consideráveis e necessários à população.(5) O pirarucu compunha a lista dos peixes que eram salgados para à venda. Avé-Lallemant resume bem a atividade de uma feitoria nas proximidades do Rio Iça, no Amazonas, onde os pescadores eram os próprios habitantes da região dos rios que na época da pesca deixavam suas casas e desciam para as praias onde construíam as feitorias para o beneficiamento dos peixes. Nas feitorias “deitam o peixe com o ventre para baixo, escamam-lhe as costas com uma machadinha ou um facão, de maneira a poderem enterrar uma afiada faca de cozinha entre o couro e a carne e esfolá-lo” E ainda “Cortam
depois as duas metades do corpo, no que revelam uma habilidade peculiar, dos dois
lados da carcaça, separando-a das grossas espinhas da cavidade abdominal, esfregamlhe sal e suspendem-nas por cima de varas, onde secam rapidamente, dentro de um a três dias, sob o sol abrasador”.(5) O desenho é James Wells Champney, datado de 1879 e compõem a obra de SMITH, Hebert H. , intitulada The Amazons and the Coast.
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💬 To be continued...
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📚✍️🏽Referências.
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📸Fonte: Desenho de James Wells Champney (1843-1903).In: SMITH, Hebert H. The Amazons and the Coast. Illustrated from sketches by J. Wells Champney and others. New York: Charles Scribner’sSons, 1879.
(1)(2) O Monarchista Paraense. Ano I. Pará, 15 de Maio de 1852/1858. n. 13 e 14. Série 2ª . pp. 7.  (3) O Liberal do Pará. Belém do Pará, 10 de Janeiro de 1869. Número 1/Belém do Pará, 25 de Janeiro de 1869. Número 12.
(4)VILHENA, Sandra Helena Ferreira. Belém: o abastecimento de gêneros alimentícios, através das
mercearias (1890-1900). Universidade Federal do Pará. Monografia de Graduação em História. Belém-Pará. 1990. pp.23.
(5)Macêdo, Sidiana da Consolação Ferreira de.Daquilo que se come: uma história do abastecimento e da alimentação em Belém (1850-1900) / Sidiana da Consolação Ferreira de Macêdo; orientador, Antônio Otaviano Vieira Junior. - 2009.
(6) AVÉ-LALLEMANT, Robert. No Rio Amazonas. Trad. Eduardo de Lima Castro. Belo Horizonte:Itatiaia, São Paulo: Edusp, 1980, p. 173.







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