Pular para o conteúdo principal

Ano Novo.

A passagem do ano ou "virada" do ano é uma data repleta de tabus, tradições e simbologias em torno da alimentação. Dentre as mais usuais estão: não comer nada que "cisca" para trás, o Peru e outras aves são alimentos que devem ficar longe da mesa de Ano Novo. Contudo, outros alimentos são os favoritos, pois simbolicamente representam fartura e bons presságios. Entre as frutas estão a romã  e as uvas, por exemplo. Dos animais o porco e os peixes tornam-se alimentos mais consumidos, além do arroz, lentilha entre outros. Das bebidas não pode faltar os espumantes. A mesa é pensada para "atrair" aquilo que se deseja para todo o ano: mesa farta e próspera. Nesse sentido, as superstições em torno da mesa muitas vezes levadas muito a sério, são parte importante do folclore da alimentação. E longe de extrapolar a mesa de Ano Novo, elas "nos" acompanham por todo o ano. E cada casa tem seu próprio ritual a mesa. Esse tema é bastante fértil, já que nas palavras de Luís da Câmara Cascudo:Um tanto aflorada nas superstições alimentares, a vastidão temática compreende toda a etiqueta tradicional da mesa, o respeito, que é um vestígio religioso inapagavel". (1) Com relação a mesa de Ano Novo e no quesito frutos, a romã, guarda uma papel nobre para este dia, já que ela como nos aponta Lúcia Gomenoso: "Por tradição, romã  é símbolo de prosperidade e riqueza". E ainda, "O fruto tem casca dura e vários pequenos caroços envolvidos em uma polpa meio doce, meio ácida, muito saborosa".(2)
Aliás, essa época do ano é o momento que mais encontro para a venda, aqui na minha cidade, a romã [ é diga-se de passagem, num valor bem alto de aquisição] . E para fechar o ano, com muita beleza em for.a de obra de arte, trago a Natureza-morta com limões, laranjas e uma romã, de Jacob Van Hulsdonck, datada do século XVII. Realmente, a impressão é que romã, está na nossa frente, prontinha para ser consumida, não é verdade?
Eu confesso que tenho minhas superstições por aqui, [comer as 7 uvas, é uma tradição/superstição que trago da minha familia materna].  E você?
.
.
.
💬Eu desejo um Ano de 2023 de muitas realizações e alegrias. Muita fartura e boa comida na mesa de todos. 🤍
.
.
.
📚✍️🏽 Referências 
🖼 Jacob Van Hulsdonck. Natureza-morta com limões, laranjas e uma romã. 1640. Museu Getty.
(1)Cascudo, Luís da. Dicionário do folclore Brasileiro. São Paulo: Global, 2012. p, 627.
(3) Franco, Ariovaldo, De caçador a gourmet:uma história da gastronomia. 4° ed. Rev. São Paulo:Editora Senac São Paulo, 2006. p, 27.
(2) Gomensoro,  Maria Lúcia. Pequeno dicionário de gastronomia. Rio de Janeiro: Objetiva, 1999, p, 348. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A bolacha preta.

Bom Dia! Em fins da década de 80, fazíamos as famosas viagens de carro, no meu caso era de caçamba mesmo,  meu pai que é do Rio Grande do Norte, levava toda a família pra visitar a família dele e íamos felizes daqui do extremo Norte para o Nordeste. Lembro que nas viagens, em especial, na volta mamãe trazia uma boa reserva de Bolacha Preta, que eu vinha degustando e que tanto adoçavam minha viagem e meu paladar. Eram dias muito felizes e saborosos! Na última viagem que minha mãe fez, eu pedi que me trouxesse a dita bolacha, queria matar a saudade gustativa. A sorda é um popular e tradicional biscoito originário do nordeste brasileiro. Feito de uma massa composta de trigo, mel de rapadura e especiarias, tais como cravo, canela e gengibre. É fabricado artesanalmente ou industrializado por fábricas panificadoras em quase todos os estados do nordeste brasileiro, sendo muito consumido na área do sertão. Conhecido também em algumas localidades por bolacha preta, vaca pr...

Filhós, filhoses ou beilhoses.

, Não era biscoito, pão, pudim nem mousse... A primeira receita que reproduzi do livro O Cozinheiro Imperial foi Verdadeira receita de beilhoses. Tenho certeza que muitos conhecem pelo nome de Filhós ou filhoses! Comecei por essa receita, porque ela tem uma memória gustativa tão boa pra mim. Enquanto eu fazia, lembrava dos filhoses que a minha tia Leila fazia e ainda faz .... ahhhh os delas são tão bons, não tem iguais. Foi tia Leila, irmã de minha mãe, que me "apresentou" os filhoses de abóbora e, naquela época eu não imaginava a origem dos beilhoses, mas, como criança gulosa que sempre fui, amava cada pedacinho daqueles filhoses crocantes por fora, macios por dentro e com aquele gosto inigualável de abóbora, canela e açúcar. Consigo até sentir o cheiro e sabor agorinha mesmo. Mas, você sabe que os beilhoses ou filhoses, fazem parte da doçaria portuguesa? O historiador portu...

Peixe-boi.

O consumo da carne do peixe-boi era muito importante na composição da dieta alimentar da região amazônica. Segundo Francisco Xavier Sampaio, no século XVIII, a carne de peixe-boi era apreciada, “principalmente a do ventre”, por ser “gostosíssima”. Dessa carne se faziam “chouriços com as próprias tripas”. Conforme deixou registrado em seu Diário da viagem da Capitania do Rio Negro, ainda que tivesse “o nome de peixe, tem mais gosto, e aparência, de carne”.(1) Ambrósio Fernandes Brandão, por sua vez, ressaltava a variedade do consumo da carne de peixe-boi em diversos pratos, inclusive como picados e almôndegas. Segundo Brandão: "Este pescado se toma e pesca às farpoadas pelos rios aonde desembocam os de água doce, e comido tem o mesmo sabor e gosto da carne de vaca sem haver nenhuma diferença de uma cousa ou outra, entanto que, se misturarem ambas as carnes em uma panela dificilmente se conhecerá uma da outra. E por este respeito se come este pescado cozido com couves, ...