Pular para o conteúdo principal

Comidinhas de Natal em Belém.

E como eram as comidinhas em Belém,  de fins do século XIX? Belém nesta época do ano tinha uma oferta bem variada de produtos alimentícios para o Natal. Um dos itens que chamam atenção nos anúncios dos jornais são os produtos importados. Especialmente,  as frutas desta época, o bacalhau e muito vinho importado. Por exemplo, em Dezembro do ano de 1881, o jornal Diário de Notícias, anunciava que no comércio O Protector das Famílias, na rua da Cadeia, n° 36 vendia-se: "Castanhas; figos, uvas hespanholas frescaes, queijadas de Cintra, broas de Natal, doce cristalizado, nozes, amêndoas, bacalháo e vinhos finos e de mesa."(1) Um ano depois, em dezembro de 1884, na Casa Carvalhaes, havia a venda de "Broas e Bolos do Natal CRYSTALIZADOS e grande variedade de refrescos."(2)
Quatro anos depois, em 5 de Dezembro de 1885, havia a oferta na Mercearia Custódio de "Castanhas!!! Cosidas e assadas" e ainda, "Saborosos petiscos (novidade) vinho de 1. qualidade!".(3) Na quinta-feira, dia 17 de dezembro do mesmo ano o comércio "A casa de Riscas", localizada na Rua de Sto Antônio, vendia para o Natal: "Queijos da Serra, queijadas de Cintra, brôas do Natal, figos e nozes. Ameixas em caixinhas transparentes, tâmaras secas em vidro e amêndoas e confeitos de legumes".(4) Mas, havia também a oferta de pratos regionais como a pescada amarela, por exemplo, na véspera de Natal, do mesmo ano, a mercearia "A Jangada", localizada na rua das Flores, canto da Travessa das Mercês oferecia: "Neste estabelecimento encontra-se  todos os dias o bom peixe frito de escabeche, sendo pescada, cortina, cavalla  e tainha, vindo no gêlo  e muitas petisqueira próprias para a estação presente, além de muitas coisinhas bôas,  tem Castanhas cosidas e assadas, polvo com ovos e com molho, e para abafar tudo isso têm o sucullento  vinho verde do novo, vindo directamente do lavrador".(5) Importante perceber a variedade de produtos para compor a mesa natalina. E também, que os alimentos giravam em torno de produtos importados e regionais. Aliás, essa realidade foi muito presente por toda a Segunda metade do século XIX. Às frutas da época, assim como hoje tinham um valor mais elevado, sendo inclusive, ofertados como presentes. Observem no anúncio a caixinha transparente de amêndoas próprias para presentear. Era possível encontrar as famosas queijadas de Cintra/Sintra no comércio em Belém. Eu confesso que fiquei imaginando o que seriam os "confeitos de legumes". Para quem quiser saber mais sobre produtos importados em Belém e seu consumo indico a leitura de minha dissertação de mestrado.[A dissertação está disponível para leitura em meu site, link na bio].
.
.
.
📚✍🏽Referências.
🛎O conteúdo deste blog está protegido pela lei n° 9.610 datada de 19-02-1998. Ao utilizá-los, não se esqueça de dar os créditos.
[Lembramos que se você faz uso dos meus textos, peço que dê os créditos e faça a citação].
(1) Diário de Notícias,  27 de dezembro de 1881.
(2) Diário de Notícias, 27 de dezembro de 1884.
(3) Diário de Notícias, 5 de dezembro de 1885.
(4) Diário de Notícias, 17 de dezembro de 1885.
(5) Diário de Notícias, 23 de dezembro de 1885.
📌Macêdo, Sidiana da Consolação Ferreira de.Daquilo que se come: uma história do abastecimento e da alimentação em Belém (1850-1900) / Sidiana da Consolação Ferreira de Macêdo;orientador, Antônio Otaviano Vieira Junior. - 2009. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A bolacha preta.

Bom Dia! Em fins da década de 80, fazíamos as famosas viagens de carro, no meu caso era de caçamba mesmo,  meu pai que é do Rio Grande do Norte, levava toda a família pra visitar a família dele e íamos felizes daqui do extremo Norte para o Nordeste. Lembro que nas viagens, em especial, na volta mamãe trazia uma boa reserva de Bolacha Preta, que eu vinha degustando e que tanto adoçavam minha viagem e meu paladar. Eram dias muito felizes e saborosos! Na última viagem que minha mãe fez, eu pedi que me trouxesse a dita bolacha, queria matar a saudade gustativa. A sorda é um popular e tradicional biscoito originário do nordeste brasileiro. Feito de uma massa composta de trigo, mel de rapadura e especiarias, tais como cravo, canela e gengibre. É fabricado artesanalmente ou industrializado por fábricas panificadoras em quase todos os estados do nordeste brasileiro, sendo muito consumido na área do sertão. Conhecido também em algumas localidades por bolacha preta, vaca pr...

Filhós, filhoses ou beilhoses.

, Não era biscoito, pão, pudim nem mousse... A primeira receita que reproduzi do livro O Cozinheiro Imperial foi Verdadeira receita de beilhoses. Tenho certeza que muitos conhecem pelo nome de Filhós ou filhoses! Comecei por essa receita, porque ela tem uma memória gustativa tão boa pra mim. Enquanto eu fazia, lembrava dos filhoses que a minha tia Leila fazia e ainda faz .... ahhhh os delas são tão bons, não tem iguais. Foi tia Leila, irmã de minha mãe, que me "apresentou" os filhoses de abóbora e, naquela época eu não imaginava a origem dos beilhoses, mas, como criança gulosa que sempre fui, amava cada pedacinho daqueles filhoses crocantes por fora, macios por dentro e com aquele gosto inigualável de abóbora, canela e açúcar. Consigo até sentir o cheiro e sabor agorinha mesmo. Mas, você sabe que os beilhoses ou filhoses, fazem parte da doçaria portuguesa? O historiador portu...

Pirarucu Frito...

Olá, leitores! Dos nossos sabores regionais o Pirarucu é um dos mais deliciosos e de um paladar bem singular. É gostoso frito com uma boa tigela de açaí. Mais o açaí paraense sem açúcar e com uma farinha bem torrada pra acompanhar. Foi assim que fiz aqui em casa outro dia e não deu pra quem quis. Fiz com uma dicas da minha enteada e ficou uma delícia.  O Pirarucu é um dos maiores peixes de água doce fluviais do Brasil. Pode atingir três metros e seu peso pode ir até 200 Kg. É um peixe que é encontrado geralmente na bacia Amazônica, mais especificamente nas áreas de várzea, onde as águas são mais calmas. Segundo a mitologia o Pirarucu era um peixe cheio de vaidades, egoísmo e excessivamente orgulhoso de seu poder. Certo dia, ele executou sem motivo índios de uma aldeia vizinha. Como castigo Tupã, o deus dos deuses mandou um relâmpago que acertou o coração do guerreiro. Seu corpo ainda vivo foi levado as profundezas do rio Tocantins e de lá transformou-se num peixe gigante e es...