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Mostrando postagens com o rótulo Eu sendo historiadora História da Alimentação

Guaraná Globo.

Quando criança, lá pelo fim dos anos 80, era comum quando ficávamos doentes "ganhar" um guaraná pra que ficássemos bons logo, quem lembra disso? A começar que refrigerante não se tomava sempre, tomar refrigerante era algo destinado aos aniversários, domingos e dias festivos. Eu adorava quando ficava "doente" e ganhava a minha garrafinha de Guaraná. Ninguém podia tomar, somente eu! Lembro da primeira viagem que fiz pra Europa e todo lugar que chegava era automático pedir guaraná, e obter a resposta que não tinham...era o indicativo que eu havia saído do Pará. A fábrica Globo, do Pará, de propriedade de Duarte & Fonseca, localizada na rua dos Timbiras, era uma das mais famosas em Belém pela produção de Guaraná. No anúncio datado do ano de 1952, "a marca consagrada em todo Brasil" trazia em seu anúncio o "nectar da Amazonia".(1) Aliás, desde início da década de 1940, a Fábrica Globo já vendia seu famoso Xarope de Guaraná, anunciando ...

Guaraná Simões

Em janeiro de 1932, a fábrica Gram-Pará de propriedade de Oliveira Simões, trazia no jornal Folha do Norte anúncio do Guaraná Simões, conhecido por "seu sabor agradabillissimo e por suas poserosas qualidades tonicas e estomachaes". Era portanto um produto de excelente qualidade já que "fabricado hygienicamente com puro guaraná de Maués e absolutamente imune de álcool " o anúncio dizia que ele era produzido com "puro guaraná Maués " ora era de conhecimento que os Maués eram os maiores produtores de Guaraná, eram "famosos" por produzir o melhor guaraná que se tem notícia. A fábrica Gram-Pará, localizada na rua 13 de maio, número 26, também tinha uma filial no Rio de Janeiro e se intitulava como aquela que vendia o "producto sem igual no Brasil". Tão bom que contava com inúmeros prêmios, tanto nacionais quanto internacionais, numa época que haviam exposições de produtos e também prêmios destinados às fábricas pela qualidade ...

As casas de Farinha.

Da mandioca inúmeros alimentos são derivados. Destes, muitos eram de origem indígena. Na imagem de Herbert Smith, intitulada "Preparo de farinha de mandioca" e que muito nos lembra as "casas" de fazer farinha do Pará, com cenário que nos é tão característico da nossa Amazônia temos um forno de farinha. A casa de fazer farinha é aberta com um telheiro, cestos no chão, uma mulher está a preparar o fazer da farinha, uma pequema pega lenha, provavelmente para alimentar o fogo. Muitas árvores em volta, deveria ser numa espécie de "copiar" adjacente à casa de residência da família. Importante dizer que da mandioca os grupos indígenas faziam diversos tipos de farinha, Monteiro nos descreve 8 tipos: farinha d'água, farinha de tapioca, farinha de guerra, farinha de macaxeira, farinha sêca ou escura, farinha sêca branca, farinha de surui e farinha de tapioca (conduto). (1) Hoje apresento a vocês duas delas: 1. A farinha d'água: "É a melhor farinha ...

Torração da Farinha

Na imagem de Maurílio Galba de 1962, vemos o processo de torração da farinha de mandioca. A cena é composta de uma mulher que torra a farinha no forno, vários cestos e ao fundo, olhando toda a cena duas criancas, uma em pé na porta da casa e outra na rede. Ao lado de um dos cestos, ao que parece várias raízes, seriam de mandioca? A imagem me remeteu a personagem Libânia de Dalcídio Jurandir que tinha "— Mão de roceira desde gita. aquele-menino. Carreguei puçá de mandioca, virei farinha no forno, remei de me doer (...) assoalhei barraca, embarreei parede, sou curada de cobra, pajé me defumou, tenho oração" (1)O viajante Bates, no ano de 1848, informava que "À pouca distância da casa havia telheiros abertos sob os quais se fazia a farinha para uso do estabelecimento. No centro de cada telheiro havia tachos rasos, feitos de barro, postos em cima do forno onde a farinha é cozida". A descrição de Bates lembra a imagem de Galba.(2) Agassiz, no século XIX, em sua estada em...

A Casa Fé em Deus...

Em 6 de janeiro de 1950, a Casa Fé em Deus, localizada na Travessa Oriental do Mercado, n.5 e de telefone 2285, de propriedade de Joaquim Escalda e que era "depósito da afamada farinha FÉ EM DEUS" recebia em "consignação todos os gêneros de produção do interior". (1) o anúncio nos permite entender duas questões: a primeira diz respeito ao fato de que o estabelecimento era muito conhecido pela população ja que tinha "numerosa freguesia da capital e do interior do Estado " não apenas era conhecida aqui na capital como nos interiores também. Uma segunda questão diz referência ao fato de que a dita casa vendia a "afamada farinha FÉ EM DEUS! Deveria oferecer uma farinha de excelente qualidade já que ela era tão afamada. Então, se comia muita farinha em Belém? Com certeza, a farinha era alimento de primeira necessidade, era a farinha de todo dia, e juntamente com a carne Verde ou seca e o peixe compunha a lista de alimentos de primeiranecessidade, tanto ...

Hot- dog.

Como já fazia tempo que eu não postava nas "sextas de pratos típicos" hoje trago numa cena do filme "Up-altas aventuras" o hot-dog. O filme, animação infantil que faz a alegria de crianças e de adultos também, conta a história de Carl Fredricksen, um senhor de 78 anos, que era vendedor de balões e que na iminência de perder a casa em que viveu por toda a vida com sua amada esposa Ellie, decide ir embora com sua casa. Ele coloca balões em sua casa, fazendo com que a casa voe. Sua ideia é viajar para uma floresta na América do Sul. Tudo muda quando ele descobre que o escoteiro Russell, um menino de 8 anos havia "embarcado" com ele. O menino que aparece na cena feliz ao ser servido com hot-dog e que "briga" com os cachorros pra que não comam seu lanche. Hoje falarei do hot-dog esse alimento que é tão americano, mas, que se popularizou no gosto dos brasileiros e paraenses também. O hot-dog segundo Gomensoro surgiu nos Estados Unidos em 1900, no mais ...

Mandioca, os índios e Pero Vaz de Caminha.

O primeiro depoimento sobre a alimentação dos indígenas em 24 de abril de 1500, na então ilha de Vera Cruz, quando Pero Vaz de Caminha descreveu o "estranho" cardápio dos indígenas, a mandioca estava lá. Assim dizia a Carta de Caminha "tinham, a saber, muito inhame e outras sementes, que na terra há e eles comem". (1). Naquela época, a mandioca era denominada de inhame. Segundo o autor nos primeiros anos de colonização, as descrições feitas da mandioca eram com a denominação de inhame. Gavriel Soares de Souza ao descrever a mandioca dizia que " é uma raiz de inhame". Pero de Magalhães Gandavo informava em 1573 que "Esta se faz da raiz duma planta que se chama mandioca, a qual é como inhame".(2) Esse inhame não era aquele consumido na África mas, sim, a mandioca, pois como certifica o autor " Não havia o inhame atingido ao Brasil quando os portugueses desembarcaram em Porto Seguro. Veio deliberadamente traziso de Cabo Verde, da ...

A mandioca II

Na história da agricultura brasileira a mandioca sempre teve uma importância única. Chegou como nos aponta Monteiro, na epoca do periodo colonial, o governo português "chegou a pagar funcionários e trabalhadores com alqueires de farinha". (1) No século XIX, em 1823, houve a chamada "Constituição da mandioca", onde para votar os eleitores tinham que provar uma renda mínima de 150 alqueires de plantação de mandioca, já os eleitores de segundo grau, ppr sua vez, precisavam ter renda mínima de 250 alqueires e eram eles que elegeriam os deputados e senadores, que precisavam de uma renda de 500 e 1000 alqueires para poderem se candidatar. Naquela época aliás, a farinha de mandioca era um dos principais alimentos dos escravos e trabalhos rurais. Vários viajantes ja faziam relatos sobre a mandioca, seus derivados e seus consumos pelas populações indígenas. A mandioca, foi a responsável pela colonização, no sentido de que ela era "pão" do colonizador, u...

A mandioca.

Uma das imagens históricas mais magníficas da mandioca pra mim é esse desenho de pena e lápis do manuscrito de Frei Christovão de Lisboa, datado de 1624. Porque ela traduz em absoluto tudo que a mandioca representa para os povos da Amazônia ao longo do tempo. Daquelas imagens que nos permite ficar horas contemplando. Porque ela nos transmite toda a vida que brota da mandioca, da terra ela está florindo muito mais do que folhas, como raízes fortes foram capazes de alimentar e "permitir" a vida de nossos ancestrais e de nós mesmos. Segundo Hue, a mandioca “(Manhiot esculenta) é uma espécie de personagem épica da alimentação brasileira. O ingrediente básico, onipresente, resistente, potente e versátil, de onde se extrai a matéria-prima para uma série de comidas e bebidas. Nativa do sudoeste da Amazônia, a mandioca foi domesticada por índios tupi há cerca de 5.000 anos, na vasta área do Alto rio Madeira, de onde se espalhou pelo Brasil adentro, atingindo o Paraguai, a Bolívia, o ...

Alimentação uma referência materna.

Quando crianças somos apresentados aos sabores e cheiros que de uma maneira geral representa quem somos, em vários aspectos e de diversas formas. Uma vez que, " o conjunto de representações, crenças, conhecimento e práticas alimentares compartilhadas no interior de uma cultura é considerado como uma forma importante de identificação coletiva". (1). Aliás, o homem se diferencia pela sua capacidade de escolher o que come e como ele vai comer. Ao entender sobre o escolher e cozinhar os alimentos uma fronteira importante da humanidade foi atravessada. Nesse sentido, não se come qualquer coisa, se come para além dos alimentos, pois cada uma de nossas escolhas são eivadas de fronteiras entre nós e o alheio, já que "o comer sempre esteve sujeito a diversos condicionantes contextuais, como os de caráter social, econômico e cultural. Comer nunca foi um ato isolado". (2). Por isso, quando saímos de nosso grupo "materno" nossa família, estado ...

"Gosto, patrimônio de nossa infância".

Eu gosto muito da ideia de "gosto, patrimônio da infância" de Ariovaldo Franco,(1) acho um dos mais completos para pensarmos a formação do gosto criado a partir da infância e das nossas raízes. São as memórias gustativas que mais levamos conosco pela vida afora. A pintura de David Gerard, datada de 1520 é muito simbólica neste aspecto, "A virgem com sopa de leite". 🎨 Segundo Franco "a socialização de uma criança compreende as mais variadas noções sobre alimentação ".(p.24) E ainda, "o gosto é, portanto, moldado culturalmente e socialmente controlado (...) os alimentos habituais tornam-se objeto de predileção, os mais saboreados. Por isso, também, apreciam-se tanto os pratos da região em que se cresceu". (3).  Uma das primeiras relações que nos marcam como pessoa está relacionada a forma como construímos nossa base alimentar. As relações criadas em torno do que comemos refletem a escolha da família que estamos inseridos e da sociedade...

O caranguejo.

O caranguejo, crustáceo muito conhecido pelos brasileiros e paraenses. Desde meados do seco XVII, ja aparece sendo descrito pelos viajantes. Segundo Nieuhof, nos idos de 1640, "o caranguejo de rio, que abunda noa terrenos ribeirinhos e nos pantanais, serve de alimentos aos brasileiros". (1) O príncipe Maximiliano de Wied-Neuwied, em 1817, sobre a Bahia, nos informa que "contentam-se em ter um pouco de farinha peixe e carne seca, e, às vezes caranguejos, que obtêm nos mangues ao redor". (2). No Pará, o caranguejo é muito apreciado, aliás, daqui se faz um acepipe único e muito apreciado: a unha de caranguejo. No início da década de 1950, por sua vez, a unha de caranguejo era um dos acepipes (3) mais cobiçados de Belém segundo as memórias de Alfredo Oliveira. De acordo com o memorialista as mais cobiçadas eram as servidas no bar “Jangadeiro, na Santo Antônio, que servia uma unha de carangueijo inesquecível”.(4) Segundo Orico, a unha-de-caranguejo era “uma das especiali...