Pular para o conteúdo principal

A farinha de mandioca, a nossa boa e velha farinha...

Olá, leitores!
A farinha para mim...é muito mais do que um hábito ou paladar costumeiro...
A farinha para mim...é cheiro, gosto e lembrança...
Ah...os sabores com lembrança são os melhores e os mais profundos.

Para Agassiz, viajante que esteve no Brasil entre 1865-1873, a farinha era: "espécie de fécula grosseira que substitui o pão (...)". p.120.* Assim, mesmo uma fécula grosseira que substitui o pão...
Para meu paladar não existe acompanhamento melhor que uma boa farinha ou uma farofa. 


“ Fabricação de farinha de mandioca”. Johan Moritz Rugendas. MCB, São Paulo.
             Em nosso país desde o início os hábitos alimentares fazem-se presentes numa mistura de sabores. 
O período colonial na Amazônia começa, no entanto, mais tarde a partir do início do século XVII com a fundação de Belém.
             Assim o português teve que se acostumar com certos hábitos como a utilização diária da farinha de mandioca que era acompanhada ora do pirarucu, ora de carne seca e compunha o prato principal em tantas casas, ainda que a farinha não fosse o único alimento feito da mandioca, como nos mostra o relato de Frei Vicente do Salvador de fins do século XVI no Brasil: “Destas raízes, e raladas se faz farinha que se come; também se deita de molho até apodrecer, e depois de limpa, espremida, se faz também farinha, e uns certos beijus como filhós, muito alvos e mimosos. Esta mesma raiz depois de curtida n’água feita com as mãos em pilouros se põe em caniços ao fumo, onde se enxuga e seca de maneira que se guarda sem corrupção quanto querem e raspada do fumo, pisadas em uns pilões grandes, e peneirada, fica uma farinha tão alva, e mais que de trigo, da qual misturada em certa têmpera com a crua se faz uma farinha biscoitada que chamam de guerra que servem aos índios e portugueses pelo mar, e quando vão a guerra como biscoito. Outra farinha se faz biscoitada da mesma água da mandioca verde se a deixam coalhar e enxugar ao sol, ou ao fogo; esta é sobre todas alvíssima, e tão gostosa, e mimosa que se não faz para quem quer”.  
  Apesar da presença da farinha de mandioca em larga escala no século XIX, em várias regiões do Brasil seus habitantes conheceram outros tipos de farinha como a farinha de Aricurí, feita a partir dos caules de palmeira aricuri na Bahia;  farinha de Peixe no Rio de Janeiro; e, claro, a farinha de Mandioca que hoje apesar de ser tão utilizada no Pará não foi uma especialidade apenas paraense, ela também foi bastante empregada entre os séculos XVI e XIX no Rio de Janeiro, Pernambuco, São Paulo, Minas Gerais, Bahia.  







*Agassiz, Louis. Viagem ao Brasil: 1865-1873. Luiz Agassiz e Elisabeth Cary Agassiz; Trad. João Etienne Filho. Apres. Mário Guimarães Ferri. Belo Horizonte, Ed. Itatiaia; São Paulo, Ed. da Universidade de São Paulo, 1975.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A bolacha preta.

Bom Dia! Em fins da década de 80, fazíamos as famosas viagens de carro, no meu caso era de caçamba mesmo,  meu pai que é do Rio Grande do Norte, levava toda a família pra visitar a família dele e íamos felizes daqui do extremo Norte para o Nordeste. Lembro que nas viagens, em especial, na volta mamãe trazia uma boa reserva de Bolacha Preta, que eu vinha degustando e que tanto adoçavam minha viagem e meu paladar. Eram dias muito felizes e saborosos! Na última viagem que minha mãe fez, eu pedi que me trouxesse a dita bolacha, queria matar a saudade gustativa. A sorda é um popular e tradicional biscoito originário do nordeste brasileiro. Feito de uma massa composta de trigo, mel de rapadura e especiarias, tais como cravo, canela e gengibre. É fabricado artesanalmente ou industrializado por fábricas panificadoras em quase todos os estados do nordeste brasileiro, sendo muito consumido na área do sertão. Conhecido também em algumas localidades por bolacha preta, vaca pr...

Filhós, filhoses ou beilhoses.

, Não era biscoito, pão, pudim nem mousse... A primeira receita que reproduzi do livro O Cozinheiro Imperial foi Verdadeira receita de beilhoses. Tenho certeza que muitos conhecem pelo nome de Filhós ou filhoses! Comecei por essa receita, porque ela tem uma memória gustativa tão boa pra mim. Enquanto eu fazia, lembrava dos filhoses que a minha tia Leila fazia e ainda faz .... ahhhh os delas são tão bons, não tem iguais. Foi tia Leila, irmã de minha mãe, que me "apresentou" os filhoses de abóbora e, naquela época eu não imaginava a origem dos beilhoses, mas, como criança gulosa que sempre fui, amava cada pedacinho daqueles filhoses crocantes por fora, macios por dentro e com aquele gosto inigualável de abóbora, canela e açúcar. Consigo até sentir o cheiro e sabor agorinha mesmo. Mas, você sabe que os beilhoses ou filhoses, fazem parte da doçaria portuguesa? O historiador portu...

Quadrados Paulista.

Olá, leitores! Essa receita é daquelas que é sensacional, veja bem: eu coloquei dois conceitos no meu livro um M/ DE MARAVILHOSO E UM E/excelente de tão boa que é!Façam, hoje mesmo :) sem palavras para descrever a tal gostosura. Quando fiz e provei essa receita, entendi que o livro Dona Benta tem raridades únicas e me questionei como aquela blogueira fazia duras críticas ao livro? Por que a minha experiência com ele a cada receita tem me deixado mais maravilhada, só posso pensar que a pessoa não deva entender muito da grandiosidade que é um livro que por gerações vem fazendo parte da cozinha de tantas pessoas...Enfim, vamos a receita: Quadrados Paulistas: p. 829. Ingredientes: Massa: 1 xícara chá de manteiga. 2 xícaras chá de açúcar. 2 xícaras chá de trigo. 1 colher de chá de fermento. 1/2 xícara de leite. 4 ovos separados. Glacê: Açúcar. Água ou sumo de laranja. Modo de Fazer: passo-a-passo:  Bata a manteiga com o açúcar, junte as gemas,...